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| Interviews@3LC - Design | ||||
| Monday, 31 July 2006 | ||||
Page 2 of 2 Os Irmãos Campana no trabalho...
A admiração pelos seus trabalhos cresce à medida que você descobre a intenção por trás do design. É natural que muitos designers tenham uma lógica interna em sua produção, mas nem todos tem uma idéia maior na cabeça – a de retribuir à comunidade local onde foram criados e à comunidade global da qual fazem parte tudo que elas lhes deram. Como partículas solares que transformam luz em energia, os irmãos Campana armazenam as sensações e paixões despertadas por outros designers e outras culturas e as usam como combustível do seu próprio processo criativo. Interligados, inovadores e, porque não, engraçados. Essas são algumas das características dos irmãos Campana e de seu trabalho. (foto: Fernando and Humberto Campana, por Yoshiaki Tsutsui). ( veja: Irmãos Campana, segunda parte )
Humberto: Essa é uma pergunta difícil (risos). Eu não penso no futuro. Sem querer ser pretensioso, vivo um dia de cada vez. Me preocupo com o momento que estou vivendo e me concentro em fazer o que gosto. Quero criar uma nova cadeira ou simplesmente ter uma boa idéia, que me agrade e me faça sentir vivo. Não sei se vale a pena dizer o que eu gostaria que escrevessem sobre mim... eu mudaria de idéia em duas semanas, dois meses, dois anos. Eu iria reler essa entrevista e pensar “Como eu era bobo!”. Mas se eu tenho de responder a sua pergunta, acho que gostaria que o capítulo sobre nós dissesse que nós fazemos o que nos dá prazer, e o que nos dá prazer nesse momento é pesquisar materiais e encontrar possibilidades de mais de um uso para o mesmo material.
Humberto: Eu acho que hoje há jovens designers que estão buscando outras formas de produzir suas peças sem ter de recorrer às grandes companhias, até porque essas companhias não tem capacidade para absorver todos os novos designers que se formam ano a ano. Eu não diria que há um design característico de um país. Algo produzido nos Estados Unidos de forma artesanal pode lembrar peças produzidas no Brasil, na Guatemala ou na Srilanka. O mundo se globalizou, e isso fez com que muitas pessoas quisessem voltar a produzir em suas casas, como se fazia antigamente. No nosso caso, a transição para as companhias italianas aconteceu pouco a pouco. É verdade que, às vezes, nosso trabalho tem como foco a realidade brasileira, porque tentamos retratar nosso meio. O esforço que fazemos é o de buscar traduzir partes do Brasil que foram esquecidos pela globalização. O que posso dizer é que não acho que o Brasil possa ser reduzido ao Carnaval e às cores vivas. Tentamos evitar os estereótipos em nosso trabalho. No fim das contas, eu não vejo nenhuma diferença significativa entre o designer brasileiro e os de outras nacionalidades. Em termos de América do Sul, não há muito diálogo intercultural. Não conhecemos uns aos outros, embora estejamos tão próximos. Eu não conheço muito sobre o design de qualidade produzido na Argentina. Talvez a solução fosse fazermos feiras de design na América do Sul para podermos saber o que nossos vizinhos estão produzindo. É uma idéia…
Fernando: Acho que é não ser conformista. Às vezes você sente algo verdadeiramente forte dentro. Nós sempre soubemos que para nós a comunicação era importante. Transmitir aos outros algo sobre você, uma parte de você. Nós tínhamos o hábito de ir ao cinema todos aos dias. Esse foi um grande canal de informação. Enquanto outros meninos jogavam futebol, nós íamos ao cinema. Em nossas brincadeiras, nós recriávamos o que tínhamos visto no cinema. Era essa necessidade de comunicação, de expressão. O design é a forma, ou melhor, a linguagem, que escolhemos para nos expressarmos, para retratarmos a nós mesmos e ao mundo que nos cerca. Não é um discurso político. Nós não negamos nossas raízes interioranas. Elas são muito importantes para nós. E também é a dimensão urbana de São Paulo. Como designers, nós resgatamos as experiências de fãs de cinema e de garotos do interior para dizer alguma coisa sobre nós mesmos.
Como vocês estabelecem suas metas profissionais juntos? Humberto: É difícil. Exige diálogo constante. Temos um relacionamento muito próximo. Às vezes, um de nós cria um conceito e o outro o desenvolve. Temos sempre algo a discutir. Hoje temos dois assistentes, Leo e Lélia, que desempenham um papel importante em nossos projetos. Suas opiniões têm relevo, porque eles têm formação e prioridades diferentes das nossas. Eles estão em nosso estúdio para ter idéias novas e para nos ajudar a resolver problemas. Éramos dois, agora somos quatro na prancheta de criação.
Humberto: Eu estudei direito, mas abandonei logo depois de me formar. O que eu sei sobre design eu aprendi na prática, com visitas a museus, por exemplo. Em São Paulo, nos anos 70, ia muito ao MASP. O museu foi projetado por Lina Bo Bardi, mulher do marchand italiano Pietro Maria Bardi. É um prédio tão belo, um cenário tão especial que me inspirou muito. Lina Bo Bardi foi a primeira pessoa que teve uma visão moderna do Brasil em toda sua elegância. O que distingue meu trabalho do do Fernando é que o meu é muito mais intuitivo. Fernando é mais racional. Ele dá corpo aos meus sonhos e as minhas criações. Às vezes, eu dou o mesmo ao trabalho dele. Não é possível separar os conceitos. Eu comecei a idéia da Cadeira Corallo, por exemplo, mas ficou muito pesado (Foto: Cadeira Corallo, foto da Edra). Quando Fernando a viu, ele retirou todos os elementos que lhe davam aquele peso e fez dela uma peça mais leve. Nossas criações são feitas a quatro mãos. Eu me envolvo mais com a parte física, trabalhando com as mãos, porque foi assim que aprendi. Em seguida, quando o protótipo está terminado, Fernando começa a “brincar”com ele. Lélia e Leo também desempenham esse papel.
Humberto: Além do Fernando, do Léo e da Lélia, temos mais cinco pessoas trabalhando em nosso estúdio na produção de cadeiras, como a Sushi. Essas pessoas vêm de comunidades no entorno de São Paulo e do Nordeste do Brasil. Nós procuramos tê-las em nosso estúdio para, pouco a pouco, nos aproximarmos mais de diferentes realidades do Brasil, pelas pessoas e pelos materiais. É claro que o que podemos fazer é pouco. Meu irmão e eu devíamos fazer mais, e temos nos concentrado nisso. Para nós é importante trabalhar nas duas direções: com grandes companhias, como a Alessi e a Edra, que nos fazem conhecidos lá fora e nos possibilitam trabalhar com design de alta tecnologia, mas também em nossa oficina de criação, um verdadeiro laboratório de idéias, que nos dá espaço para ousar e planejar o futuro de nosso trabalho. Agora, por exemplo, estamos trabalhando com diversos elementos, como fibras naturais, tentando utilizar material reciclado que talvez possamos, no futuro, aplicar em peças produzidas em conjunto com grandes companhias. É importante ter esse equilíbrio no trabalho – produzir com as grandes e continuar a trabalhar em pequena escala no estúdio. Isso nos permite pesquisar materiais e tentar realizar um trabalho que também leva em conta o respeito que todos nós devemos ter por nosso planeta. Trabalhamos com reciclagem, embora não em 100% de nossa produção. Gostaríamos de chegar mais próximo a essa meta e de fazer com que as grandes companhias investissem mais nesses tipos de projeto.
O que você acha do que o Maarten Baas fez com sua Cadeira Favela ?
H:
Adorei
o que ele fez com minha cadeira! Nada é para sempre! Gosto desse conceito! Não
estou muito convencido do conceito de imortalidade... nem do de “ cápsula do
tempo”. Talvez o mundo acabe antes que se abra a cápsula do tempo.
Humberto: Posso propor outras três pessoas? Que tal Oscar Niemeyer? João Gilberto – ele é como se fosse o Papa, para mim – ou Roberto Burle Marx? Ele foi um grande paisagista brasileiro. Fernando: Eu diria minha babá Alice, que criou a mim e a meus dois outros irmãos. Ela é uma pessoa muito boa. Está até hoje com minha mãe. Raí também. Ele jogou no Paris St. Germain. Ele criou uma fundação que cuida de crianças pobres. Ensina os meninos a jogar futebol e procura fazer com que mais tarde possam jogar em bons em times e ganhar o seu sustento e de sua família. Ele está dando um belo exemplo. Outro seria Carlinhos Brown, que criou uma estrutura semelhante em uma favela bahiana. Ele tem um estúdio de gravação naquela comunidade e ensina educação artística, música e dança aos meninos.
Fernando: Quando sinto que as pessoas estão vivas, sejam boas ou más. Quando entendem que há uma inter-relação entre suas vidas. Quando você tenta entender o que está por trás de cada um, você se dá conta que não se pode julgar. Você só consegue emitir opiniões sobre o bem e o mal em momentos de mudanças bruscas, inesperadas. Aí as pessoas se mostram. Essa, em minha opinião, é a mágica da vida. Não as pessoas, mas seus corações. Um animal, mesmo selvagem, pode ser dominado, mas não uma pessoa. Cada cabeça, uma sentença, com liberdade para fazer e criar o que bem entender. (foto: Léo e Lelia, pelo Estúdio Campana) |
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