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Monday, 31 July 2006
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Estúdio Campana: Absolute Charm
VERSÃO EM PORTUGUÊS

 

Estúdio Campana: Charme Absoluto

 

 

fhc225"Não fique nervosa! Fernando e Humberto são muito simpáticos, você vai ver..." tranqüilizou-me Lélia, sua assistente. A simpatia, devo dizer, é apenas uma das muitas qualidades que podem ser atribuídas aos "Irmãos Campana", como é conhecida a dupla de designers.  Nascidos no interior de São Paulo, no Brasil, entraram para a constelação das estrelas do design com sua "Cadeira Vermelha", produzida pela empresa italiana Edra em 1998. Seu trabalho reflete a ligação que têm com sua comunidade, sua cultura e as dicotomias entre campo, onde nasceram, e cidade - a megalópole São Paulo -, onde estudaram e vivem até hoje.  Também reflete a relação de um com o outro.  Fernando e Humberto acreditam muito no trabalho de equipe e na pesquisa com materiais.  Estão sempre buscando dar novas formas a materiais já conhecidos. Seu objetivo é utilizar cada vez mais material reciclado, até chegar a meta de 100%.  Sua ligação com o mundo high- tech da Edra e da Alessi tem como contrapeso seu pequeno laboratório de pesquisa e produção, onde seu trabalho inovador toma a forma de peças de edição limitada. É fácil entrar em sintonia com os irmãos Campana; é só se deixar conquistar pelo seu jeito aberto, afetuoso e disponível de ser. 

A admiração pelos seus trabalhos cresce à medida que você descobre a intenção por trás do design. É natural que muitos designers tenham uma lógica interna em sua produção, mas nem todos tem uma idéia maior na cabeça – a de retribuir à comunidade local onde foram criados e à comunidade global da qual fazem parte tudo que elas lhes deram. Como partículas solares que transformam luz em energia, os irmãos Campana armazenam as sensações e paixões despertadas por outros designers e outras culturas e as usam como combustível do seu próprio processo criativo. Interligados, inovadores e, porque não, engraçados. Essas são algumas das características dos irmãos Campana e de seu trabalho.  (foto:  Fernando and Humberto Campana, por Yoshiaki Tsutsui).  ( veja: Irmãos Campana, segunda parte )

 

production200Qual a contribuição que  vocês gostariam de dar  ao mundo do design? O que diria a introdução do capítulo “Irmãos Campana” em uma publicação sobre design? 

Humberto:  Essa é uma pergunta difícil (risos). Eu não penso no futuro. Sem querer ser pretensioso, vivo um dia de cada vez. Me preocupo com o momento que estou vivendo e me concentro em fazer o que gosto. Quero criar uma nova cadeira ou simplesmente ter uma boa idéia, que me agrade e me faça sentir vivo. Não sei se vale a pena dizer o que eu gostaria que escrevessem sobre mim... eu mudaria de idéia em duas semanas, dois meses, dois anos. Eu iria reler essa entrevista e pensar “Como eu era bobo!”. Mas se eu tenho de responder a sua pergunta, acho que gostaria que o capítulo sobre nós dissesse que nós fazemos o que nos dá prazer, e o que nos dá prazer nesse momento é pesquisar materiais e encontrar possibilidades de mais de um uso para o mesmo material.  

 
A maior parte de seu trabalho é baseada na vida cotidiana e em seu relacionamento com o Brasil. O que diferencia o design brasileiro do norte-americano e do europeu? Não me refiro a formas características, mas sim aos aspectos mais intangíveis, mas conceituais do design. E esses elementos estão presentes em outros países da América do Sul ou cada país tem sua própria identidade em termos de design?

Humberto:  Eu acho que hoje há jovens designers que estão buscando outras formas de produzir suas peças sem ter de recorrer às grandes companhias, até porque essas companhias não tem capacidade para absorver todos os novos designers que se formam ano a ano. Eu não diria que há um design característico de um país. Algo produzido nos Estados Unidos de forma artesanal pode lembrar peças produzidas no Brasil, na Guatemala ou na Srilanka. O mundo se globalizou, e isso fez com que muitas pessoas quisessem voltar a produzir em suas casas, como se fazia antigamente. No nosso caso, a transição para as companhias italianas aconteceu pouco a pouco. É verdade que, às vezes, nosso trabalho tem como foco a realidade brasileira, porque tentamos retratar nosso meio. O esforço que fazemos é o de buscar traduzir partes do Brasil que foram esquecidos pela globalização. O que posso dizer é que não acho que o Brasil possa ser reduzido ao Carnaval e às cores vivas. Tentamos evitar os estereótipos em nosso trabalho. No fim das contas, eu não vejo nenhuma diferença significativa entre o designer brasileiro e os de outras nacionalidades. Em termos de América do Sul, não há muito diálogo intercultural. Não conhecemos uns aos outros, embora estejamos tão próximos. Eu não conheço muito sobre o design de qualidade produzido na Argentina. Talvez a solução fosse fazermos feiras de design na América do Sul para podermos saber o que nossos vizinhos estão produzindo. É uma idéia…    

 

humbatworkO que significa ser designer para vocês? 

Humberto:  Tudo. Minha vida. Eu não seria feliz se não fosse designer. É paixão.   (Acima, a produção de uma cadeira Sushi, aqui, Humberto no estúdio.  Fotos:  Estúdio Campana).

Fernando:  Acho que é não ser conformista. Às vezes você sente algo verdadeiramente forte dentro. Nós sempre soubemos que para nós a comunicação era importante. Transmitir  aos outros algo sobre você, uma parte de você. Nós tínhamos o hábito de ir ao cinema todos aos dias. Esse foi um grande canal de informação. Enquanto outros meninos jogavam futebol, nós íamos ao cinema. Em nossas brincadeiras, nós recriávamos o que tínhamos visto no cinema.  Era essa necessidade de comunicação, de expressão. O design é a forma, ou melhor, a linguagem, que escolhemos para nos expressarmos, para retratarmos a nós mesmos e ao mundo que nos cerca. Não é um discurso político. Nós não negamos nossas raízes interioranas. Elas são muito importantes para nós. E também é a dimensão urbana de São Paulo. Como designers, nós resgatamos as experiências de fãs de cinema e de garotos do interior para dizer alguma coisa sobre nós mesmos.  

 

Como vocês estabelecem suas metas profissionais juntos?

Humberto:  É difícil. Exige diálogo constante. Temos um relacionamento muito próximo. Às vezes, um de nós cria um conceito e o outro o desenvolve. Temos sempre algo a discutir. Hoje temos dois assistentes, Leo e Lélia, que desempenham um papel importante em nossos projetos. Suas opiniões têm relevo, porque eles têm formação e prioridades diferentes das nossas. Eles estão em nosso estúdio para ter idéias novas e para nos ajudar a resolver problemas. Éramos dois, agora somos quatro na prancheta de criação.

 
corallo225Humberto, você estudou direito e Fernando, arquitetura. Como essas habilidades/capacidades se combinam em seu processo criativo? Como se pode distinguir a contribuição de cada um de vocês numa peça de design? Digamos, por exemplo, que um tenda a utilizar mais a cor e o outro, a dar ênfase aos materiais.

Humberto:  Eu estudei direito, mas abandonei logo depois de me formar. O que eu sei sobre design eu aprendi na prática, com visitas a museus, por exemplo. Em São Paulo, nos anos 70, ia muito ao MASP. O museu foi projetado por Lina Bo Bardi, mulher do marchand italiano Pietro Maria Bardi. É um prédio tão belo, um cenário tão especial que me inspirou muito. Lina Bo Bardi foi a primeira pessoa que teve uma visão moderna do Brasil em toda sua elegância. O que distingue meu trabalho do do Fernando é que o meu é muito mais intuitivo. Fernando é mais racional. Ele dá corpo aos meus sonhos e as minhas criações. Às vezes, eu dou o mesmo ao trabalho dele. Não é possível separar os conceitos. Eu comecei a idéia da Cadeira Corallo, por exemplo, mas ficou muito pesado (Foto: Cadeira Corallo, foto da Edra). Quando Fernando a viu, ele retirou todos os elementos que lhe davam aquele peso e fez dela uma peça mais leve. Nossas criações são feitas a quatro mãos. Eu me envolvo mais com a parte física, trabalhando com as mãos, porque foi assim que aprendi. Em seguida, quando o protótipo está terminado, Fernando começa a “brincar”com ele. Lélia e Leo também desempenham esse papel.   

 

favela250Vocês fazem oficinas de criação e  produzem peças de design a partir de materiais considerados menos nobres, envolvendo sua comunidade nesse processo. Vocês também produzem no outro extremo, i.e., o “ high-end design”. Como vocês conciliam os dois? O quanto a sua comunidade participa em cada uma dessas vertentes?  

Humberto:  Além do Fernando, do Léo e da Lélia, temos mais cinco pessoas trabalhando em nosso estúdio na produção de cadeiras, como a Sushi. Essas pessoas vêm de comunidades no entorno de São Paulo e do Nordeste do Brasil. Nós procuramos tê-las em nosso estúdio para, pouco a pouco, nos aproximarmos mais de diferentes realidades do Brasil, pelas pessoas e pelos materiais. É claro que o que podemos fazer é pouco. Meu irmão e eu devíamos fazer mais, e temos nos concentrado nisso. Para nós é importante trabalhar nas duas direções: com grandes companhias, como a Alessi e a Edra, que nos fazem conhecidos lá fora e nos possibilitam trabalhar com design de alta tecnologia, mas também em nossa oficina de criação, um verdadeiro laboratório de idéias, que nos dá espaço para ousar e planejar o futuro de nosso trabalho. Agora, por exemplo, estamos trabalhando com diversos elementos, como fibras naturais, tentando utilizar material reciclado que talvez possamos, no futuro, aplicar em peças produzidas em conjunto com grandes companhias. É importante ter esse equilíbrio no trabalho – produzir com as grandes e continuar a trabalhar em pequena escala no estúdio. Isso nos permite pesquisar materiais e tentar realizar um trabalho que também leva em conta o respeito que todos nós devemos ter por nosso planeta. Trabalhamos com reciclagem, embora não em 100% de nossa produção. Gostaríamos de chegar mais próximo a essa meta e de fazer com que as grandes companhias investissem mais nesses tipos de projeto.

 

vermelha170bolha200Quais seriam os três objetos de design de sua produção que você consideraria mais representativos e que colocaria em uma “cápsula do tempo”, para deixar o seu trabalho registrado para além de nossa época?

H:  A Cadeira Vermelha (esquerda, foto da Edra), a Cadeira Favela (acima, foto da Edra), e a Cadeira de Plástico Bolha (figura à direita).  Essas três cadeiras dizem muito sobre mim e a época em que vivo. A Vermelha fala de liberdade, a Favela, das nossas ruas, e a Plástico Bolha sobre reciclagem, usar e re-usar.

O que você acha do que o Maarten Baas fez com sua Cadeira Favela ?

H: Adorei o que ele fez com minha cadeira! Nada é para sempre! Gosto desse conceito! Não estou muito convencido do conceito de imortalidade... nem do de “ cápsula do tempo”. Talvez o mundo acabe antes que se abra a cápsula do tempo.

multidao200Fernando:  Concordo com a Vermelha, porque foi um projeto conjunto. Ele estava tentando usar cordas, e daí tirei a idéia da estrutura. É assim que funcionamos. Eu capturo as idéias dele e tento transformá-las em algo real e concreto. Talvez porque tenha formação em arquitetura. A cadeira foi feita a quatro mãos, como muitos de nossos projetos. Mas essa é mais representativa porque é a “cara” que mostramos para o resto do mundo. Espero não parecer arrogante, mas, de alguma forma, queríamos colocar o Brasil no mapa mundi do design. E conseguimos. Estamos preocupados mesmo é com a criação em nosso trabalho e não com o resultado. É claro que precisamos de dinheiro e reconhecimento para levá-lo adiante. Os outros dois… deixe me ver… a Cadeira Banquete com os animais empalhados e a Multidão, com as bonecas, são opostos. Uma tem como inspiração a China e a outra, o Nordeste do Brasil.  As bonecas tem expressões estranhas. Umas não têm boca, outras não tem nariz.  São artesanato, produto do folklore; parecem bonecas de vudu. Se você vir algo semelhante na América Central é provavelmente vudu. No Brasil a gente também tem vudu, mas não é assim. Já a Banquete representou uma forma de recriar elementos da cultura popular sem usá-los da forma que tradicionalmente são utilizados. Tenho muito orgulho dessa peça. É confortável e atraente. Se você prestar atenção aos animais vai ver que eles não estão se comportando de forma pacífica. Estão comendo uns aos outros, por isso a chamamos de “banquete”, que significa uma farta refeição. Nos apropriamos de elementos infantis e os utilizamos em objetos para adultos, para mostrar um pouco do mundo em que vivemos. A Multidão mostra a diversidade dos grandes agrupamentos de pessoas (retratada à direita por Luis Calazans) e a Banquete faz você pensar na cadeia alimentar. Eu gostaria que esses dois objetos passassem a fazer parte da vida de outras pessoas. Isso seria o equivalente a  completar o ciclo da criação na casa de outro alguém.

 
Ronaldinho, Roberto Carlos, ou Dida? 

Humberto:  Posso propor outras três pessoas? Que tal Oscar Niemeyer? João Gilberto – ele é como se fosse o Papa, para mim – ou Roberto Burle Marx? Ele foi um grande paisagista brasileiro. 

Fernando:  Eu diria minha babá Alice, que criou a mim e a meus dois outros irmãos. Ela é uma pessoa muito boa. Está até hoje com minha mãe. Raí também. Ele jogou no Paris St. Germain. Ele criou uma fundação que cuida de crianças pobres. Ensina os meninos a jogar futebol e procura fazer com que mais tarde possam jogar em bons em times e ganhar o seu sustento e de sua família. Ele está dando um belo exemplo. Outro seria Carlinhos Brown, que criou uma estrutura semelhante em uma favela bahiana. Ele tem um estúdio de gravação naquela comunidade e ensina educação artística, música e dança aos meninos.

 
O que motiva vocês?

leo_leliaHumberto:  As pessoas. Pessoas interessantes. Pessoas que gostam de design, como Alexander Von Vegesack, do Vitra Design Museum, Murray Moss da Moss Gallery em Nova Iorque, Massimo Morozzi da Edra, e Paola Antonelli, para dizer apenas alguns.  Estar em contato com essas pessoas que amam o design é extremamente motivador. O trabalho de outros colegas, com Ross Lovegrove e Hella Jongerius me dá inveja de uma forma positiva.  Quero fazer algo tão bom quanto o que eles fazem.

Fernando:  Quando sinto que as pessoas estão vivas, sejam boas ou más. Quando entendem que há uma inter-relação entre suas vidas. Quando você tenta entender o que está por trás de cada um, você se dá conta que não se pode julgar. Você só consegue emitir opiniões sobre o bem e o mal em momentos de mudanças bruscas, inesperadas. Aí as pessoas se mostram. Essa, em minha opinião, é a mágica da vida. Não as pessoas, mas seus corações. Um animal, mesmo selvagem, pode ser dominado, mas não uma pessoa. Cada cabeça, uma sentença, com liberdade para fazer e criar o que bem entender. (foto:  Léo e Lelia, pelo Estúdio Campana)



 
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